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Olho isso sem amor e com a mesma distância que me afasto de um louco: Não suporto que conheço aquilo de algum canto, não engulo a certeza de que nunca o havia visto.

E como se no exterior nos encontrássemos dizendo a mesma língua tão desconhecida por todos: Dividindo um espelho, mas separando corpo de corpo.

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Outra teoria do espaço vazio

Ao encher de novo a jarra com a água vagarosa do filtro, confere que a mudança do apartamento em frente ao seu está terminada. A visão descuidada consegue atravessar uma janela e depois a outra do outro lado da sala, e é possível ver uma mancha verde escura do outro lado de fora. O braço então cede ao peso da jarra, que só aceitou encher por que estava cansado de lhe dizerem que estes são os melhores anos da vida de uma pessoa, já que ele tem fôlego, juízo, vontade e pouca responsabilidade. Diziam isso na adolescência também: muito fôlego, nenhum juízo e pouca responsabilidade. E disseram-lhe também na infância: puro fôlego, nada de juízo ou responsabilidades. Um bicho jovem. Um animalzinho.

Mas não sente falta desses melhores anos. Detesta bastante o passado e suporta o presente: não suportar no sentido de dar conta de segurar o enfadonho, mas no sentido de quem carrega algo com o mínimo de esforço e desconforto. Aos poucos deixa de suportar. Carrega então a jarra de volta para a mesa e esvazia de copo em copo todo o conteúdo. Alguns copos permanecem vazios, e todos ainda falam bobagens. Volta para a cozinha, e chega a comparar o vazio aberto da jarra leve com o vazio entre as janelas fechadas.

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Sim, tem sido uma grande aventura. Ontem fui dormir por volta das onze e acordei umas três com o barulho da água; isso seguiu o mesmo ritmo insistente durante o domingo, e agora são oito horas e parece que a chuva está começando a parar. Volto a me obsessionar com um trecho muito simples de um livro preferido: “Choveu durante vinte horas, desde a madrugada bem até a entrada da noite, sem interrupção e tanto, com uma violência tão intensa e constante, que um estrépito contínuo, parecido ao de uma esquadra de aviões, ensurdeceu o ar ao longo de todo o dia”*.

A cada chuva que vem de forma semelhante, tiro o livro da estante e releio essa parte. E então fico esperando que caia exatamente essa chuva, e depois, confiro se a chuva que caiu é como essa. Acho que foi a chuva mais satisfatória em semelhança até hoje. Vamos ver como isso vai seguir.

(*PAULS, Alan. El Passado. Ed. Anagrama. Pág. 132. Traduzo aqui muito porcamente, me desculpe por isso, estou cansada demais para abrir o dicionário e pesquisar as nuances da língua castelhana).