Para o eremita (2)

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Sempre vou levantar os olhos e olhar para você com medo. Não sei fazer isso de outra maneira. Há pequenas coisas que nos acontecem que ainda conseguem me fazer mal, apesar de suas tentativas inúmeras de perdão – são muito pequenas e me interrompem a ponto de eu acordar cedo pensando: será que vamos poder sair de casa hoje? Por isso, estou me mudando de novo, aqui está meu endereço. Espero continuar recebendo os seus postais. A sua brincadeira infantil de escrever meu nome, depois a minha rua, depois o meu bairro, o meu estado, meu país, meu continente, o planeta, a galáxia, o universo. É como se você, meu eremita, dissesse que eu estou dentro de algo muito maior que eu: distâncias que você percorre e eu nunca percorrerei. Assim, para escrever estes mapas, você precisa dos nomes, e escrevê-los sobre pontos, e linhas de rios. A cada lugar que você escreve no seu caderno de habitâncias, passa a existir um lugar onde não posso descansar meus pés, restando-me apenas a sagrada permissão para descansar os meus olhos, descansar meus olhos sempre através dos seus.

Sobre a excelência

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Como se o sorriso (sardônico) fosse capaz de ocupar o rosto todo: notar apenas a boca com dentes corretos, mas de formato estranho (afiado).  Não sei se seria capaz de algum envolvimento: conhecer um homem que está sentado e depois estar de pé ao lado dele, perceber que ele é ainda mais alto do que parecia. E sendo eu, dentre Ariadne, Diane, Isabel, Lucília e Mariana, a mais alta, a diferença real assusta e o mundo é vertiginoso. O rosto muda, mas o sorriso continua no canto da boca o tempo todo, os olhos meio amassados, como se ele estivesse me mastigando. Falar do machismo naquela época (passada). Pergunta o que eu acho. Bem, fazia sentido. As mulheres se moviam muito menos (até hoje se movem pouco, a esperar sem astúcia) e ocupavam um lugar diferente. Freud, Nietzsche e Darwin. Talvez nós soframos a síndrome de Estocolmo: apaixonar-se pela mão que aprisiona. Que linda mão. Não para dizer que mereciam o lugar onde estavam colocadas… Merecimento não há. A história da mulher talvez seja uma grave fatalidade, eu precisaria estudar muito para responder a essa pergunta. Mas não me ofendo. 

Para o eremita

ImageEscrever tem certa dose de cegueira, tal como tocar uma música tem certa dose de surdez. Se eu e você e você escutamos alguma coisa, e se somos alguma coisa naquilo que nós ouvimos, seja palavra, seja ruído claro, a frase justifica a carne dos nossos corpos aqui parados num fundo de areia. E se falo demais, e falo sozinha a você, não espero ouvir uma resposta, eremita, não é porque detesto a sua palavra, mas temo tanto o silencio da sua língua.