Meu mapa guarda agora

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Estivestes em todos os lugares que meu mapa guarda agora. Eu me vejo caminhando no meio das pedras tumulares de outra gente, que a princípio nada tem a ver com nós (pois ainda são donos de todos os nossos pertences, cada coisa sobre a minha mesa). Pedras tumulares tão antigas que não restam mais os corpos, imagino que não restam nem mesmo os ossos, apenas pedras, já que o tempo é passado. Conheço pessoas que passaram por este caminho antes de mim, pessoas que como eu estudavam, ou diferente de mim, nada tinham a ver com isso. Quantos mantiveram o olhar curioso para azulejos de cozinha ou peças de cerâmica que não possuem muito valor, apesar do tempo. O tempo pousa como poeira, sim, depois calcifica e depois de estragar, mantém enterrado. E o tempo descansa em permanência física, deposita um valor invisível que não conseguimos raspar muito bem. Ó tu, fazias esta viagem como eu, como uma cruzada pessoal e silenciosa? Friccionavas a língua deles para fora da pedra?

 

(Foto: Carolina Guimarães)

Quando não havia nada

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” A vastidão do futuro, o passado compensa-a pelo seu peso”

Franz Kafka, diário nov. 1910.

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Gosto do homem que revira o lixo. Gosto do homem coberto de lama. Amo os cães de rua que acompanham o mendigo louco, eles falam a mesma língua. Apenas não consigo compreender muito bem os insetos se debatendo nas folhas de papel do livro aberto como se fosse uma luminária de mariposas. Quando haviam velas, elas se debatiam nas chamas. Quando não havia nada

La guerra fría, la postguerra

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Se ainda evitamos pensar nas coisas que não existem mais, ou naquelas coisas que quase existem aos fragmentos (os cacos de vidro que deixaram na calçada e eu recolhi sem cortar minhas mãos, embrulhei em jornal para não cortarem as mãos de ninguém) existem em versões incompletas e contraditórias; se ainda as evitamos é porque há mais resquício do que esperávamos. Um caco resta pronto e prestes a ferir o pé do distraído, não o meu, nunca o meu. O meu se crava na lâmina quebrada. Se ainda existem, o tempo se torna merecedor de outra perda, como se o mundo por si evitasse a superpopulação. Se ainda evitamos (…)