Nota

Ver e ouvir

meninas

Sentado na cama com os dois pés no chão e a coluna encurvada, não me responde a pergunta. Já não ouve. Não sei se está se preparando para sair ou para se deitar. Não sei se está se lembrando do rosto borrado de uma amiga, e hesita duas vezes antes de falar comigo. Entreabre os lábios e não diz nada. O seu olhar embaçado não sabe se permanece ou volta, continua sozinho. Na multidão do mundo segue sozinho e às vezes sorri inocente de uma visão que perde o foco e esquece de si, pois seus olhos são menos importantes que seus ouvidos. O olhar do frio lembra um dia de férias em alto verão. Ouve o riso delas. Mas você diz para a neve: é proibido estar desvestido, é proibido andar descalço. Se aquieta em casa. Seguro o braço dele com força entre os meus dedos, e agarro por tanto tempo que minha mão sua e a pele do braço dele sua, e nós nos misturamos. Você vai dormir ou vai dar uma saída, eu pergunto de novo para os sapatos do lado dos pés. Você não responde. Desliza a minha mão do seu braço e começa a se despir.

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para se lembrar

Quem entra numa caverna se afasta do horizonte. Enche a boca antes de partir, é esta a maneira que ele usa para se lembrar. A dureza no fundo dos olhos e o peso escuro da água morna dentro da boca. Cospe, eu repito, cospe. Bato duas vezes nas costas dele enquanto lhe dou um puxão nos cabelos. Água e saliva na pedra de dentro. Esta é a maneira que ele usa para se lembrar. Quando cospe esquece.

por não poder dizer, fico em silêncio

Este jovem senhor passa os seus dias tentando pensar o passado como se ele fosse hoje. Eu melhoro de uma doença. Ele pensa numa palavra que exprima exatamente o que é preciso dizer no léxico de todas as línguas conhecidas e percebe que não é possível encontrar a palavra , mesmo tendo todos os dicionários à disposição. “Por não poder dizer, fico em silêncio”, diz o senhor. Então ele olha pra mim e sorri antes de responder o significado de uma palavra próxima, e o significado dela está além do que estava escrito na página ilegível do dicionário velho. Por nós estarmos longe, ele evita dizer coisas que conhece por vivência, fica presa na língua dele uma palavra que eu talvez já conheça. Algo se perde, mas algo fica. Quando erram meu nome, ele corrige.

talvez de novo contra o ar

 

Nunca pensei que ele roçaria na língua dos marginais. Coração roxo de tristeza. Ele tem olho de fotografia, cara de fotografia. Nunca gritou na vida (gritou sim, num momento que eu não conheço: contra uma porta que se fechou na chuva, do outro lado alguém passa mal; contra o próprio ar numa situação perigosa; talvez de novo contra o ar se alguma vez andou de montanha-russa, mas é mais do tipo que trava os dentes). O desenho do cabelo escuro está tão riscado no rosto e no resto do corpo que eu examino. A coragem dele é toda indecisa. Quando vem, a coragem dele é uma voz bonita que não sabe muito bem o que falar. Não combina com a mão dele, tão grande que estrangula o som das palavras quando se exibe esticando palma e dedos no ar. Eu toco os livros dele. Cheiro a cortina da casa dele. Olho muito para os pés dele e depois para as meias dobradinhas que ele escolheu para pôr. Ele não olha para mim enquanto fala da nuvem de mariposas. Quando esquece um botão aberto eu fecho. Quando não pronuncia esta palavra eu a leio em voz alta. Quando rói unha tiro a mão da boca dele.