estas máquinas

grafite e aquarela s/ papel,210 x 148 cm

grafite e aquarela s/ papel,
148 x 210  cm

Sabemos do perigo destas máquinas. Estas máquinas servem somente por causa do insuportável que se vive. Mas estas máquinas apenas servem. Elas não dão conta de cada tijolo e cada gesto, e cada aspecto de olhos. Elas não chegam até isso. Às vezes se esquecem, mas estas máquinas servem para esquecer o que deve ser esquecido e lembrar o que deve ser lembrado. Qualquer erro acarreta desastre. Seu mecanismo antigo, usado em poemas e diálogos e gramáticas, esconde etimologias e cai no momento em que as sílabas se tornam difíceis. Estas máquinas não servem, mas nada serve além destas máquinas. O que é olho, carne e som só chega até mim através destas máquinas. Quando eu estiver cansado, estas máquinas me servem de repouso. Quando trabalhamos, trabalhamos estas máquinas. Se não existe algo de distinto, a máquina não para. Ela começa na primeira palavra. Começa sempre, mas não termina até que morram a língua e os dedos. Qualquer erro acarreta mudez.

Nota

Ver e ouvir

meninas

Sentado na cama com os dois pés no chão e a coluna encurvada, não me responde a pergunta. Já não ouve. Não sei se está se preparando para sair ou para se deitar. Não sei se está se lembrando do rosto borrado de uma amiga, e hesita duas vezes antes de falar comigo. Entreabre os lábios e não diz nada. O seu olhar embaçado não sabe se permanece ou volta, continua sozinho. Na multidão do mundo segue sozinho e às vezes sorri inocente de uma visão que perde o foco e esquece de si, pois seus olhos são menos importantes que seus ouvidos. O olhar do frio lembra um dia de férias em alto verão. Ouve o riso delas. Mas você diz para a neve: é proibido estar desvestido, é proibido andar descalço. Se aquieta em casa. Seguro o braço dele com força entre os meus dedos, e agarro por tanto tempo que minha mão sua e a pele do braço dele sua, e nós nos misturamos. Você vai dormir ou vai dar uma saída, eu pergunto de novo para os sapatos do lado dos pés. Você não responde. Desliza a minha mão do seu braço e começa a se despir.

para se lembrar

Quem entra numa caverna se afasta do horizonte. Enche a boca antes de partir, é esta a maneira que ele usa para se lembrar. A dureza no fundo dos olhos e o peso escuro da água morna dentro da boca. Cospe, eu repito, cospe. Bato duas vezes nas costas dele enquanto lhe dou um puxão nos cabelos. Água e saliva na pedra de dentro. Esta é a maneira que ele usa para se lembrar. Quando cospe esquece.

por não poder dizer, fico em silêncio

Este jovem senhor passa os seus dias tentando pensar o passado como se ele fosse hoje. Eu melhoro de uma doença. Ele pensa numa palavra que exprima exatamente o que é preciso dizer no léxico de todas as línguas conhecidas e percebe que não é possível encontrar a palavra , mesmo tendo todos os dicionários à disposição. “Por não poder dizer, fico em silêncio”, diz o senhor. Então ele olha pra mim e sorri antes de responder o significado de uma palavra próxima, e o significado dela está além do que estava escrito na página ilegível do dicionário velho. Por nós estarmos longe, ele evita dizer coisas que conhece por vivência, fica presa na língua dele uma palavra que eu talvez já conheça. Algo se perde, mas algo fica. Quando erram meu nome, ele corrige.